Esse tal de Twitter virou febre, todo mundo querendo saber o que o resto do mundo está fazendo. Aliás esse é o slogan deles "What are you doing?".
Ah? O que eu estou fazendo? Já chega meus superiores perguntando isso e eu tentando dar conta de tanto trabalho.
Imagina "um zilhão" de pessoas na internet querendo saber o que estou fazendo...
tentando dar conta do meu trabalho e ainda tendo que contar isso para um bando de curiosos.
E no meio da minha revolta com essa estupidez de bisbilhotar a vida dos outros, li o texto do Xico Sá (aliás, recomendo o blog dele - http://carapuceiro.zip.net/)
Então faço das palavras dele as minhas (com todo o devido respeito e citação).
(postado em 29/03/2009 por Xico Sá)
NÃO ME SIGA, NÃO SOU NOVELA
“Acordei, fui ao banheiro...”
E eu com isso, meu amigo, você diria, ai na sua moita existencial, nem ai para o que se passa na vida de seu ninguém.
“Dei a descarga...”
E daí, colega, não fez mais que o recomendável pela boa educação materna.
“Bebi um copo d´água...”
Peraí, meu rapaz, que diabos eu tenho a ver com isso? Sim, eu sei, ingerir o precioso líquido nas primeiras horas da manhã é um hábito saudável, mas entorne o seu copázio lá com as suas negas, não careço de tais notícias particularíssimas, vê se me erra, camarada.
Fosse pelo menos uma daquelas garrafas do velho Anísio Santiago, aí sim, até levaria uns torresmos, um marreco, um ponche, um capote para o banquete na taverna.
“Agora suco de laranja com torradas e queijo fresco, light, claro...”
Certo, amigo, você se cuida, seguramente vai morrer cheio de saúde –pense em um defunto rosado!-, mas não carece encher o saco dos outros.
E por ai segue a narração, tintim por tintim, de tudo que se passa na vida da tal criatura. Só não comunica das suas humaníssimas ventosidades intestinais e traques do gênero. O resto vale na miudeza cotidiana.
Eis o espírito da mais nova modinha da Internet, meu jovem, o tal do twitter, que você, novidadeiro por excelência, já deve ter enfadado de ouvir falar.
A moral desta rede de relacionamentos é o troca-troca de mensagens rápidas sobre o que cada um está fazendo a cada minuto. Uma leseira monstra com milhões de seguidores do mundo inteiro. De Nova York à lan house da pracinha de Solidão, Pernambuco; do Recife a Bodocó; de BH a Veredinha; de Fortaleza aos sertões dos Inhamuns.
Tal rebuliço virtual me faz lembrar um velho conselho, ainda em voga em algumas plagas: “Mata uma galinha gorda e chama ele/ela para conversar em tua casa”.
Era apropriado às ocasiões em que as pessoas se demoravam muito ao telefone ou conversavam, por exemplo, de um carro para outro, atrapalhando o tráfego. Conveniente também quando o freguês entretinha o balconista em uma animada prosa ou a mocinha contava a sua vida inteira para a outra mocinha do guichê de atendimento público.
Sim, amigo, a mania de fazer do simples e transparente gesto de beber um copo d´água manchete dos novos tempos já possui até um verbo abrasileirado: tuitar. Eu tuito, tu tuitas, ele tuita...
É muita perobice ou não é, meu velho?
Por via das dúvidas, fica valendo a lição preventiva da filosofia do antigo pára-choque: “Não me siga, eu não sou novela.” E tenho dito.


